Da villa romana de Santa Vitória do Ameixial à Horta da Torre: Universidade de Évora coordena duas escavações que revelam novos capítulos da ocupação romana no Alentejo
O Verão 2026 fica marcado por campanhas arqueológicas no Alentejo, coordenadas por André Carneiro, professor do Departamento de História da Universidade de Évora (UÉ), que demonstram o potencial científico do património arqueológico da região. Com a participação de estudantes da Universidade de Évora e desenvolvidas na Villa Romana de Santa Vitória do Ameixial, no concelho de Estremoz (junho e julho), e na Horta da Torre, em Fronteira (agosto e setembro), as duas escavações revelam novos dados sobre a ocupação do território durante a época romana, mas também sobre as transformações que estes espaços conheceram ao longo dos séculos. Embora distintos na sua história e dimensão, ambos os sítios partilham um objetivo comum: aprofundar o conhecimento científico sobre o passado, formar novas gerações de arqueólogos e criar bases sólidas para a valorização patrimonial e cultural do interior alentejano.
“Santa Vitória do
Ameixial: reconstruir a história de um monumento nacional
Na Villa Romana de Santa Vitória do Ameixial, classificada como Monumento Nacional, a campanha de 2026 permitiu recuperar informação inédita sobre um sítio que não era alvo de escavações documentadas desde o início do século XX, mais precisamente, desde 1916. "O objetivo essencial passa por recuperar informação, de modo a conseguirmos uma leitura clara da presença humana antiga no local. Os dados existentes são soltos e dispersos, sendo necessário construir um discurso sólido e coerente", explica André Carneiro.
Os trabalhos
concentraram-se na zona mais elevada da villa, onde se acredita localizar-se a
zona nobre da casa, conforme registo das escavações de 1914-1916. A equipa
identificou “um pavimento e muros que se encontram em bom estado de
conservação”, revela o professor, acrescentando que “também intensificámos os
referenciais de formação para os alunos, pois realizaram numerosas tarefas de
registo em campo e organização da informação que, em geral, não são abordadas
nas escavações arqueológicas no território português”.
Entre as descobertas mais
relevantes encontra-se a identificação de duas fases distintas de ocupação da
villa. "A grande surpresa consistiu no facto de os muros revelarem duas
fases de ocupação. Até ao momento, em Santa Vitória do Ameixial apenas se
registavam estruturas consideradas como de um momento homogéneo - a grande
residência de prestígio do século III/IV. Contudo, os muros identificados na
campanha de 2026 revelam duas fases, pois um claramente sobrepõe-se a outro.
Poderemos estar perante uma casa mais antiga, talvez do século I d.C., que mais
tarde é reformulada para se construir um novo ambiente doméstico", explica
o investigador.
Outro dos aspetos
inovadores da campanha foi a identificação de um fragmento arquitetónico de
época paleocristão, correspondente a um período “para o qual nunca foi
noticiada qualquer evidência”, sublinha o docente da UÉ.
O facto dos mais notáveis
elementos deste sítio arqueológico se encontrarem no Museu Nacional de
Arqueologia é apontado como o maior desafio desta escavação, aponta o
professor.
“A UÉ tem um papel
estruturante que não se limita à escavação em Santa Vitória do Ameixial: a
colaboração insere-se num quadro mais amplo, pois a UÉ tem a co-direcção dos
trabalhos para a Carta Arqueológica de Estremoz. Ou seja, não estudamos o sítio
isoladamente, mas todo o território envolvente. Além do mais, vários estudantes
de Doutoramento em Arqueologia encontram-se a trabalhar sobre conteúdos de
Santa Vitória do Ameixial”, sublinha André Carneiro.
Entretanto, o projeto vai
entrar no novo ciclo de quatro anos, que se prevê possa reforçar as componentes
de escavação, conservação e restauro e ainda na valorização do local. O esforço
financeiro e logístico do Município de Estremoz está garantido para este novo
ciclo de trabalhos.
Horta da Torre: um dos
mais excecionais conjuntos arqueológicos romanos do país
Se Santa Vitória procura
recuperar a história de um sítio emblemático, a Horta da Torre continua a
surpreender pelo “nível de conservação muito relevante e conteúdos únicos para
o território português”, destaca André Carneiro.
As escavações decorrem
desde 2012 e permitiram revelar progressivamente uma “imponente villa romana”,
da qual apenas uma pequena parte é atualmente conhecida. "O que conhecemos
é um fragmento do que existiu: temos uma área aberta com pouco mais de 500
metros quadrados para uma área estimada de mais de 30 mil metros quadrados de
extensão de vestígios", explica o professor da Universidade de Évora.
“A Horta da Torre é uma
casa com soluções únicas e especiais dentro do quadro do povoamento romano no
território português: temos uma sala de banquete com um stibadium, o
móvel onde se reclinavam os convidados, dominando uma sala onde entrava água
para criar soluções decorativas únicas e diferenciadas”, revela o investigador,
acrescentando que, “nesse sentido, temos desenvolvido um trabalho em
continuidade que nos permite colocar à vista e estudar os espaços contíguos à
sala: dois grandes peristilos e os seus compartimentos em muito bom estado de
preservação”.
A campanha deste ano
incidiu na ala norte do peristilo grande com vários compartimentos muito bem
preservados. “Estamos também a intervencionar uma das lixeiras de época romana,
com elementos ainda muito bem conservados dos banquetes da sala do stibadium:
muitos elementos osteológicos, ou seja, ossos de bovinos e caça, que seriam
consumidos grelhados a altas temperaturas, mas também muitas conchas de
moluscos, pois ostras e berbigão vinham do litoral para serem consumidos neste
sítio do interior alentejano. Temos ainda os recipientes cerâmicos usados na
iluminação da sala, bem como na amesendação das refeições”, revela André
Carneiro.
“Tratando-se de um sítio
arqueológico excepcional, é difícil isolar uma única descoberta”, confessa o
professor da UÉ, acrescentando que “temos um imenso volume de dados que nos
permite perceber como decorriam os banquetes em época romana, mas também sobre
a ocupação do espaço em etapa pós-abandono - ou seja, após o seu uso opulento
em época romana, o local é abandonado, mas depois frequentado por pastores em
etapa pós-romana (século VI/VII)”.
“Por exemplo, na
imponente sala do stibadium, onde a água fluía pelo pavimento, instala-se uma
cabana que deixou buracos de poste no chão da sala, demonstrando uma forma
totalmente distinta de ocupar e viver naquele ambiente”, exemplifica o
investigador, afiançando que “a Horta da Torre constitui um sítio ímpar para
entendermos os processos de ocupação e reocupação nos fins do Império romano.
Contudo, também merece destaque o estudo das soluções decorativas no sítio,
pois temos muitos elementos que nos permitem entender como eram usados os
mosaicos, estuques ou objectos que preenchiam os ambientes do local”.
Contudo, continua a ser o stibadium a constituir um dos elementos mais singulares da Horta da Torre. "O stibadium constitui o mais bem preservado exemplar conhecido no território português", afirma André Carneiro.
“O nível de preservação
dos contextos arqueológicos e a possibilidade de estabelecer paralelos” são
apontados pelo docente da UÉ como elementos que tornam a Horta da Torre como um
sítio arqueológico de especial importância. “A Horta da Torre tem similitudes
com locais no Oriente do Império - convém notar que no século IV a capital do
Império Romano está em Constantinopla, a actual Istambul. Nesse sentido, ver na
Lusitânia um sítio que tem paralelos próximos com locais próximos da capital do
Império é muito interessante”, sublinha.
Questionado sobre os
desafios que esta escavação representa, André Carneiro responde que “trabalhar
no interior do Alentejo sem financiamento é o maior desafio”. “E, no entanto,
trazemos o mundo para Fronteira: este ano teremos estudantes de 7 nacionalidades,
representando 10 universidades nacionais e estrangeiras. No passado, tivemos
projetos colaborativos com instituições espanholas, francesas e holandesas, e
seguimos com várias parcerias, de modo a ultrapassarmos os constrangimentos
motivados pela ausência de programas de apoio à Arqueologia em Portugal”,
aponta.
No entanto, com mais de
50 artigos publicados em várias línguas e mais de 100 apresentações em quatro
continentes, “o valor da Horta da Torre é hoje indiscutível junto da comunidade
científica e da população local”, salienta André Carneiro.
“A Universidade de Évora
tem tido um papel como espaço de divulgação e promoção do projeto, permitindo
estruturar redes colaborativas das quais beneficiam os nossos estudantes. Por
exemplo, no actual ciclo de trabalhos temos seis estudantes de formação avançada
a trabalharem conteúdos do concelho de Fronteira. Um dos alunos está em
Groningen a desenvolver o seu doutoramento, já com três artigos em publicações
Q1 e Q2 a difundirem conteúdos sobre este território. Trata-se de uma marca de
internacionalização fundamental”, destaca o professor.
Apesar do “local estar
localizado em propriedade privada e, nesse sentido, ainda não terem sido
tomadas medidas para a valorização do local”, refere o docente, o mesmo “é hoje
procurado por muito público turístico”.
“O projeto é consensual
junto das instituições locais e tem todas as condições para seguir em mais
quatro anos de projeto”, afiança André Carneiro.
Ciência, tecnologia e
formação de novos arqueólogos
Apesar das especificidades de cada projeto, as duas campanhas partilham metodologias científicas avançadas e uma forte componente pedagógica. Levantamentos com drones, prospeção geofísica por georradar, modelos digitais do terreno e análises laboratoriais permitem hoje orientar as escavações com elevado rigor científico antes mesmo da abertura das áreas de intervenção.
Em paralelo, ambos os
projetos assumem um papel determinante na formação prática dos estudantes da
Universidade de Évora. Em Santa Vitória participaram dez estudantes
distribuídos por dois turnos, enquanto na Horta da Torre a campanha reúne 22
alunos provenientes de 7 nacionalidades e de 10 universidades nacionais e
estrangeiras, vários deles em formação de mestrado e doutoramento.
Para o coordenador este
tipo de experiência de escavação é “fundamental” na formação de futuros
arqueólogos, pois permite “a aquisição de competências em trabalho de campo,
que se encontra devidamente credenciado como uma das unidades curriculares da
licenciatura”. Contudo, o professor refere que a participação dos estudantes
nos trabalhos vai muito para além da formação científica, “estando em
permanência, trabalhando e convivendo em grupo, os alunos desenvolvem
competências sociais, de trabalho em equipa e de solidariedade”.
"Os alunos recebem a
habitual formação em Arqueologia mas também contactam e percebem todo o
potencial de alcance social que a Arqueologia permite, em especial nos
territórios de baixa densidade e de grande proximidade à população",
destaca André Carneiro.
Conhecimento ao
serviço dos territórios
Para além da investigação
científica, ambos os projetos procuram gerar impacto nas comunidades onde se
desenvolvem.
Em Santa Vitória do
Ameixial, a investigação deverá apoiar a criação de um centro interpretativo e
de um percurso de visita, promovidos pelo Município de Estremoz. “A Câmara
Municipal de Estremoz está disposta a criar um centro interpretativo com uma
exposição e um circuito de visita ao público. Trata-se de um projecto-âncora
para uma freguesia periférica no espaço do concelho, que tem poucos recursos
próprios e está afastada dos pontos de maior interesse turístico em Estremoz”,
revela André Carneiro, afiançando que “o projeto pretende ter também impacto
social e uma mais-valia económica para a localidade, fazendo ainda com que a
população local volte a encarar a villa romana como um elemento estruturante na
sua identidade. Trata-se de um projeto vital para este espaço geográfico”.
Já na Horta da Torre, o
projeto tem vindo a consolidar uma forte ligação à comunidade local, envolvendo
ações de divulgação, formação e iniciativas com agentes económicos, incluindo o
desenvolvimento de produtos inspirados na gastronomia romana. “Por exemplo,
vamos lançar uma marca de biscoitos em colaboração com uma doçaria local -
sendo que estes biscoitos têm a originalidade de se inspirarem nas receitas de
época romana e serem lançados no mercado com o logotipo do nosso projecto. É um
exemplo de como na Arqueologia procuramos construir pontes com a identidade
local e com parceiros económicos”, exemplifica o professor da UÉ.
"O maior desafio que
temos na Arqueologia consiste em transformar o conhecimento em discurso para o
público em geral", afirma André Carneiro, concluindo que "precisamos
de perceber melhor os sítios para criarmos discursos que permitam a todo o
público entendê-los."
Ao combinar investigação
científica, inovação tecnológica, formação avançada e ligação às comunidades,
estes projetos contribuem simultaneamente para aprofundar o conhecimento sobre
o passado romano da região e para valorizar o património como recurso científico,
cultural e social. Mais do que revelar novos vestígios arqueológicos, as duas
campanhas demonstram como a investigação desenvolvida pela Universidade de
Évora continua a construir novas interpretações sobre a história do território
e a aproximar esse conhecimento da sociedade.

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