Oceano une ciência e inovação em workshop promovido pela Universidade de Évora

 


A ciência, a inovação e a economia azul estiveram em destaque na Universidade de Évora, que promoveu, na manhã de 22 de julho, o workshop "Alentejo e o Oceano – Desafios e oportunidades para a região no litoral do continente europeu". O encontro reuniu especialistas nacionais e internacionais para refletir sobre os desafios que o oceano enfrenta, o contributo da investigação científica para a sua preservação e as oportunidades que o mar representa para o desenvolvimento sustentável e a competitividade do país. 

 

Pedro Madureira, Pró-Reitor para a Inovação e Áreas Emergentes e coordenador do Workshop, agradeceu a presença de todos neste Workshop que cumpriu o objetivo de servir de plataforma para fomentar a colaboração entre a Universidade e as partes interessadas externas, através da troca de conhecimentos e da divulgação de investigação inovadora que está a ser desenvolvida no domínio do oceano e da sua interação com o território.

O Auditório 131 do Colégio do Espírito Santo, praticamente lotado, ouviu atentamente as palavras de boas vindas do Reitor da Universidade de Évora, António Candeias, que apresentou a estratégia de afirmação da UÉ nas Ciências do Mar, defendendo que a ligação da Universidade ao mar resulta de uma visão estratégica sustentada na ciência, na inovação e na cooperação.

 

Academia reforça aposta estratégica no oceano com investimento no CIEMAR e em novos projetos de formação e investigação 

Na intervenção, o Reitor começou por desafiar a ideia de que uma universidade do interior não deva assumir o oceano como uma das suas prioridades. "À primeira vista, poderá parecer paradoxal que uma universidade sediada no interior do país coloque o oceano entre as suas áreas estratégicas de desenvolvimento. Mas os paradoxos, por vezes, escondem as maiores evidências", afirmou.

António Candeias sublinhou que, apesar de estar sediada em Évora, "o oceano nunca esteve verdadeiramente distante da nossa identidade nem da nossa ambição", recordando a proximidade do litoral alentejano e a ligação histórica da Universidade às ciências marinhas.

O Reitor destacou o percurso do Laboratório de Ciências do Mar (CIEMAR), criado em 1990, como unidade de investigação, ensino e prestação de serviços dedicada ao conhecimento do ambiente marinho e à utilização sustentável dos seus recursos, particularmente na costa alentejana. Salientou ainda que o Laboratório foi "o embrião da participação da Universidade de Évora no MARE - Centro de Ciências do Mar e do Ambiente", desempenhando desde então um papel relevante no apoio científico e logístico a cursos de licenciatura, mestrado e doutoramento, bem como em ações de divulgação científica dirigidas às comunidades locais.

Durante a sessão, António Candeias anunciou que está concluído o projeto da futura sede do CIEMAR, um investimento superior a três milhões de euros. Segundo explicou, "pretendemos que este novo espaço reforce a investigação multidisciplinar, fomente a inovação e contribua para o aparecimento de novas atividades económicas de elevado valor acrescentado para a região".

Para o Reitor, a crescente afirmação de Sines e Santiago do Cacém como polos ligados ao mar e à economia azul representa uma oportunidade para reforçar a presença da Universidade no território. "A Universidade de Évora pretende afirmar-se como um parceiro estratégico deste processo, colocando o conhecimento científico ao serviço das empresas, dos municípios, das instituições e da sociedade", afirmou.

“Para concretizar esta visão, continuaremos a investir de forma inequívoca na formação em Ciências e Tecnologias do Mar”, afiançou António Candeias, tendo destacado no domínio da formação o lançamento da licenciatura em Estudos do Mar, iniciada no ano letivo de 2025/2026, desenvolvida em parceria com a Universidade Nova de Lisboa e a Universidade do Algarve. Referiu ainda os mestrados em Gestão e Conservação de Recursos Naturais e em Engenharia e Gestão da Aquacultura, bem como a proposta de doutoramento em Ciências e Tecnologias do Meio Aquático, atualmente em avaliação, que pretende reforçar a formação avançada nesta área em colaboração com outras instituições de ensino superior.

A intervenção abordou igualmente o contributo da Universidade de Évora para a afirmação internacional de Portugal no domínio do oceano. O Reitor recordou a participação da instituição na preparação da proposta portuguesa de extensão da plataforma continental e o apoio prestado junto da Autoridade Internacional dos Fundos Marinhos.

“O território marítimo, sob jurisdição nacional, representa uma das maiores responsabilidades e, simultaneamente, uma das maiores oportunidades estratégicas do país. É um património que importa conhecer melhor, preservar com responsabilidade e valorizar de forma sustentável”, apontou o Reitor.

Na parte final da sua intervenção, António Candeias estabeleceu um paralelismo entre os desafios da investigação oceânica e a necessidade de aproximar o interior do litoral através do conhecimento. "Tal como o oceano nunca se deixou conquistar apenas pela proximidade geográfica, também a ligação entre o interior e o litoral se constrói pela ciência, pela colaboração e pela determinação", afirmou.

Concluindo, o Reitor sintetizou a visão estratégica da Universidade de Évora para esta área: "No fundo, o oceano começa sempre antes da linha da costa; começa na vontade de o compreender. É essa vontade que hoje nos reúne."

De seguida, Maria João Bebianno, Professora Catedrática Jubilada da Universidade do Algarve, Co-coordenadora do Comité Nacional da Década das Nações Unidas para o Desenvolvimento Sustentável e que integra o Grupo dos vinte e cinco peritos mundiais responsáveis pela redação do Third World Ocean Assessment (WOA III) das Nações Unidas, apresentou as principais mensagens do WOA III, que foi divulgado no passado dia 8 de junho, Dia Mundial dos Oceanos. No Workshop, Maria João Bebianno apresentou ainda, em jeito de balanço a meio da década, toda a dinamização da Década para o Oceano em Portugal, que decorre até 2030.

 

Maria João Bebianno alertou para os impactos cada vez mais evidentes das alterações climáticas nos ecossistemas marinhos

À margem do workshop, a perita explicou que uma das suas principais prioridades tem sido reforçar a participação nacional nos trabalhos das Nações Unidas. "Quando eu cheguei só tinha havido um contributo de quatro portugueses no primeiro relatório. A partir daí houve uma movimentação bastante grande e tem vindo a crescer. O meu objetivo, para além da responsabilidade científica do grupo de peritos, é envolver o máximo de Portugal possível", afirmou. Segundo a especialista, Portugal tem vindo a conquistar reconhecimento internacional no contexto das Nações Unidas, beneficiando de uma crescente credibilidade científica. "Portugal tem sido muito bem visto e eu tenho tido um apoio total do secretariado da Divisão de Assuntos dos Oceanos das Nações Unidas", destacou.

A especialista recordou que o papel do grupo de peritos consiste em disponibilizar conhecimento científico rigoroso para apoiar os decisores políticos. "Nós não fazemos política. Transformamos a ciência em conhecimento para que os decisores possam tomar as suas decisões", frisou.

Maria João Bebianno alertou para os impactos cada vez mais evidentes das alterações climáticas nos ecossistemas marinhos, considerando que uma das consequências mais preocupantes é a alteração da circulação oceânica. "As alterações climáticas estão a induzir alterações das correntes oceânicas, o que significa que os recursos vivos estão a mudar de sítio. Espécies que eram pescadas numa determinada zona podem já não estar lá", explicou, acrescentando que ainda existe um conhecimento limitado sobre estes fenómenos.

"O impacto da temperatura do oceano conhece-se relativamente bem até aos 200 metros de profundidade. A partir daí existe ainda muito desconhecimento", afirmou, apontando outra das preocupações sobre o Oceano.

A perita chamou igualmente a atenção para os efeitos da poluição por plásticos nos ecossistemas marinhos. "Mais de quatro mil espécies marinhas são afetadas pelo plástico. Além disso, o plástico agrega contaminantes que acabam por entrar na cadeia alimentar e, muitas vezes, chegam ao consumo humano sem que tenhamos consciência disso", alertou, referindo que uma das grandes inovações da terceira edição é a adoção do conceito da ONU “Uma Só Saúde”, ou One Health. A abordagem defende que a saúde ambiental do mar está intimamente ligada ao bem-estar e à sobrevivência da humanidade.

Apesar do cenário preocupante, Maria João Bebianno considera que a comunidade científica está a trabalhar na procura de soluções que possam integrar as futuras avaliações internacionais sobre o estado do oceano.

 

Perita portuguesa das Nações Unidas defende maior envolvimento da ciência na resposta aos desafios do oceano

Neste sentido, a especialista defendeu ainda uma maior abertura das universidades à sociedade e uma participação mais ativa em redes internacionais de investigação. "Os investigadores ainda estão um pouco fechados e algumas universidades também. Isso não é bom. É preciso sair para fora, divulgar o que se faz e construir redes internacionais importantes para o país", afirmou.

Na sua perspetiva, iniciativas como o workshop promovido pela Universidade de Évora desempenham um papel importante na aproximação entre ciência, sociedade e decisores, contribuindo para reforçar a cooperação internacional e a resposta aos desafios globais relacionados com o oceano.

O programa do Workshop incluiu também a sessão “Um olhar sobre o presente e o futuro do Mar na Universidade de Évora” dedicada à investigação desenvolvida na academia nas áreas das ciências do mar, conservação, habitats marinhos, recursos geológicos, alterações climáticas e economia azul.

O Workshop terminou com uma mesa-redonda sobre os desafios para a economia azul em Portugal, contando com a participação de representantes de várias entidades nacionais.

 

Economia azul deve afirmar-se como motor de riqueza e inovação, aponta o Secretário de Estado das Pescas e do Mar

Por fim, na sessão de encerramento, o Secretário de Estado das Pescas e do Mar, Salvador Malheiro, defendeu que a economia azul deve ser encarada como um dos principais motores de desenvolvimento económico de Portugal, assente na valorização sustentável dos recursos marinhos, na investigação científica e na cooperação entre instituições.

Na intervenção, o governante sublinhou que o país precisa de alterar a forma como encara o oceano. "O nosso grande objetivo é, de uma vez por todas, olhar para o mar não apenas como uma oportunidade, mas como um ativo gerador de riqueza, uma riqueza que tem de ser devolvida às pessoas."

Entre os projetos em desenvolvimento, destacou a criação de uma rede nacional de hubs azuis, distribuídos ao longo da costa portuguesa e com valências complementares. Segundo explicou, esta infraestrutura permitirá reforçar a investigação aplicada e aproximar a ciência do tecido empresarial. "Estamos neste momento a terminar essa rede de hubs azuis espalhados por toda a nossa costa marítima. Para além de constituir uma excelente oportunidade para impulsionar a investigação aplicada, permitirá dar origem a empresas, startups e gerar riqueza", afiançou.

O Secretário de Estado das Pescas e do Mar considerou ainda que o sucesso da economia azul dependerá da capacidade das instituições trabalharem em conjunto, valorizando o conhecimento já existente no país. "Ninguém nos vai perdoar no futuro se não soubermos colaborar. Se não soubermos trabalhar em conjunto", afirmou, acrescentando que Portugal dispõe de investigadores de excelência reconhecidos internacionalmente: "Temos gente muito capaz, internacionalmente reconhecida. Também temos de ter essa capacidade de conhecer os nossos melhores e proporcionar-lhes as melhores condições para desenvolverem o seu trabalho."

Dirigindo-se à Universidade de Évora, Salvador Malheiro incentivou a academia a continuar a desafiar as instituições públicas e a desenvolver projetos inovadores ligados ao mar. "Desafiem-nos. Mesmo que não seja diretamente da nossa área, é importante explicar aos outros o quão fundamentais são estes projetos científicos. A ciência é o futuro", afirmou.

Concluindo a intervenção, o Secretário de Estado das Pescas e do Mar defendeu que Portugal reúne condições para assumir uma posição de liderança internacional nas ciências do mar. "Nas ciências associadas ao oceano estamos na linha da frente. Não tenham medo de competir com os outros. Temos todos de defender o nosso mar e, sobretudo, tirar partido dele nas dimensões social, económica e ambiental.



 

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