
As celebrações do Natal para os presidiários católicos, abertas a todos os que desejem celebrar com a Igreja este momento festivo, adquiriu, ao longo dos anos, generalizada simpatia de todos os que povoam dia a dia as nossas cadeias, incluindo das diferentes e sucessivas Ex.mas Direções e dos Srs. Guardas Prisionais, com quem sempre se tem mantido a melhor cooperação institucional.
Ao longo dos anos, a celebração do Natal nos Estabelecimentos Prisionais foi assumindo tonalidades mais ou menos litúrgicas, mais ou menos preparadas ou improvisadas, com mais ou menos qualidade festiva, porém sempre com elevado valor humano e gerador de saudável distensão e espírito de família. Em suma, todos agradeciam estas iniciativas da Igreja e as avaliavam como um elevado contributo de humanização. Nos dois anos em que fui capelão do Estabelecimento Prisional de Évora, 1986-1988, muitas vezes ouvi da parte das várias funções que constituíam aqueles serviços: “Volte sempre!”. Sei que esta é também a experiência dos capelães e dos voluntários de muitos outros estabelecimentos. Verdadeiras e inesquecíveis Amizades se construíram nestas circunstâncias muito exigentes e duras da vida!
Este ano e pelos motivos sobejamente conhecidos, não nos foi possível compartilhar o Natal com as Cadeias, nomeadamente, de Évora e Elvas. Este ano não foi possível celebrar a Eucaristia de Natal com os Católicos ali internados, ficando assim privados de liberdade religiosa na sua cidadania.
Tantos anos passaram sobre a presença da Igreja nesta pastoral específica, em muitos deles se deram grandes convulsões e se viveram vicissitudes e transformações sócio-políticas de grande relevo, inclusive de carácter revolucionário, porém o direito fundamental da pessoa humana à liberdade religiosa foi sempre garantido, muito mais no Natal. Neste ano 2018, não é assim.
Não emito juízos de valor ético sobre as diversas matérias em questão, pois não sei se alguém pensou nisso, ou se interessa, apenas exprimo um sentimento legitimamente humano e que cabe na expressão “lamento profundamente”. Sim, lamento que não se tenha salvaguardado este direito fundamental e constitucional nas ditas “garantias mínimas !”, ou nos “direitos mínimos”. Trata-se a meu ver de um preocupante e sintomático Sinal dos Tempos a merecer atenta leitura e séria reflexão da parte de todos os que se preocupam com a qualidade da nossa cidadania e com o nível humano e civilizacional da nossa sociedade.
Um forte abraço do Arcebispo de Évora para todos os que formam a realidade do dia-a-dia dos Estabelecimentos Prisionais de Évora e Elvas, sem excepção. Para todos o meu respeito e os meus cumprimentos.
Santo Natal e Abençoado Ano Novo, são os meus votos e de todos os que programaram a minha ida até vós e comigo estariam convosco.
+Francisco Senra Coelho
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